Criador
e criatura
Possuidor de desejos, dotado de vontade livre e com possibilidades
de satisfazer suas curiosidades e necessidades naturais, o homem sempre
procura responder às estimulações e as motivações externas que o
convidam ou impelem a ações diversas daquelas nas quais se empenha de
modo costumeiro ou quase permanente.
O cotidiano pode ser muito bom e excepcionalmente proveitoso, mas
também é cansativo e saturante, a ponto de levar indivíduos e grupos à
procura dos mais diversos substitutivos – mesmo que temporários – de
variáveis e de alternativas diversas em busca de sua felicidade ou de
alguma coisa que possa representa-la.
Se existisse um painel que exibisse gráficos demonstrativos das
diversas formas de depressão que envolve o mundo moderno, ele mostraria
que o homem de hoje carrega em seus ombros um fardo superior a suas forças:
toda a preocupação que há dois milhões de anos oprimiu o Zingantropo,
seu velho e modesto ancestral, que se contentava em colher sementes e
frutos e em caçar animais menores e peixes utilizando como instrumentos
os seixos rolados.
O homem da aproximação do segundo milênio da era cristã
apresenta-se cansado, com a fadiga e o desgaste que assolaram seu longínquo
precursor, todos os seus descendentes e seus ascendentes das três eras
paleolíticas. Por isso é tenso e sua insegurança na sociedade não deve
representar um monopólio seu. Os homens das épocas passadas também
devem ter se enojado das primitivas cidades e dos impérios da Idade da
Pedra Polida. A agricultura muscular da época talvez os tenha revoltado
tanto quanto a tecnologia avançada o faz com trabalhadores contemporâneos,
sobrepujando as resistências e mudando os destinos dos seres
inteligentes, livres e criadores de seu próprio futuro.
As sistematizações filosóficas dos gregos e as normas éticas e
morais das grandes correntes religiosas orientais e ocidentais que
propiciaram o advento dos diversos sistemas econômicos e sociais em vigor
não foram suficientes para satisfazer a curiosidade das pessoas nem
aquietar os anseios e os sobressaltos de seu coração.
A invenção do alfabeto fonético, embora linear e
individualizante, criou para o individuo humano a necessidade de
comunicar-se sempre mais e em melhores níveis com um numero sempre
crescente de pessoas.
A primeira Revolução Industrial, embora tivesse libertado o homem
do desgaste muscular no cultivo da terra, não o satisfez e o fez
determinar-se a lutar pela integração a civilização urbana, que acabou
por escraviza-lo aos postulados mutáveis dos impérios e correntes econômicas,
sociais e políticas que acabaram pó desiludi-lo, desagrada-lo e
desgasta-lo.
O
homem cansou-se e, quando já exausto, pensava em viver tranqüilo, surgiu
o século XX com todo o aparato de automação tecnológica, com sua
cultura sistematizada e fundamentada nos multimeios de comunicação e de
informação, além da sistematização do ensino massificante e do uso de
satélites espaciais e interplanetários. Enfim, no limite de suas forças,
desesperou-se com a violência da automação sobre seu cérebro pela
aplicação das leis e dos sofisticados aparelhos da cibernética, alma e
cerne da segunda Revolução Industrial. Por isso conclui que seu
desespero tem razões justificáveis e profundas, pois sabe que – mesmo
permanecendo vivo em carne e ossos – corre grave risco de não passar de
um ser ornado com as características de vivente, mas com as reais dimensões
de sucata humana.
Tudo somado transforma-se num drama cujo ator principal é o próprio
homem, que, representando seu papel permanente, se cansa e não se lembra
que deve assumir outros papéis de maior envergadura e responsabilidade.
Carrega não apenas as conseqüências de seus problemas, mas também a
responsabilidade de suas origens e causas, pois ele também é o autor de
todas e de cada uma das etapas dessa opressiva evolução. Ele mesmo
permitiu que a tecnologia substituísse o natural pelo artificial, pelo
litigioso, pelo competitivo, pelo falso e, por vezes, pelo imoral,
alterando todas as relações naturais positivas que eram salvaguardas da
própria verdade. Por isso hipertrofiou-se como ser inteligente e livre e,
pouco a pouco, escravizou-se a posições absurdas e desumanas, que o
levaram a efetuar desnecessárias inovações ambientais que acabaram por
vitima-lo em nome do progresso e para a glória da tecnologia soberana.
Agora para poder viver, o homem é obrigado a enfrentar suas
criaturas e delas só descansa quando lhe é permitido dar-se ao luxo do
uso da evasão a algum bolsão de natureza (excepcionalmente à parte das
incursões transformadoras do próprio homem) para recompor-se, para
descansar da tortura de horários rígidos pelo próprio homem. Então,
conclui que o mal não se encontra no progresso nem na tecnologia, mas no
despreparo do próprio homem em eleger seus objetivos, determinar ritmos
possíveis para conduzir bem suas ações e programar suas criaturas para
que não afetem os limites do próprio homem, seu criador.